"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.’’
José Saramago, Apresentação pública do livro Ensaio sobre a Cegueira
Nunca tinha pensado no verdadeiro sentido da palavra cegueira até ao dia em que esta forçosamente se impôs na minha rotina. Acordo, com a ajuda da minha mão pego na bengala e dirijo-me por instinto à casa de banho. Agora já consigo tratar da minha higiene sozinha. Decorei qual é o lugar permanente dos champôs, da minha escova de dentes, do chuveiro e até do armário onde estão guardadas as tolhas de banho. Depois de superar um dos muitos obstáculos que enfrento todos os dias chego sempre à conclusão de que tenho fome. A cozinha fica mesmo ao lado do meu quarto e por isso a tarefa de chegar até lá é bem fácil. E vestir? Nem me digam nada… Sempre fui uma mulher vaidosa que planeava detalhadamente o que usar e como conjugar todas as peças de roupa. O meu mais precioso amigo, o tacto, adquire aqui um papel crucial pois é ele que, juntamente com as etiquetas em Braille que imperam no meu armário, todos os dias me ajuda a perceber se determinada peça de roupa fica bem com outra. Apesar disto ainda sinto a falta do pensamento que diariamente me ocorria quando me via ao espelho: ‘’Até estou bonita’’.Saio de casa. A bengala, aquele pau de ferro que costumam tratar como um objecto inútil, tornou-se uma das minhas melhores amigas e é com ela que me oriento até à escola de Braille. Adorava dizer que a escola é verde, espaçosa, cheia de quadros, que tem um jardim magnífico e que o porteiro Pedro é lindo de morrer. Não posso fazê-lo. Posso sim dizer que as paredes são frescas, talvez feitas de gesso. O chão é frio, algo que senti no dia em que decidi ir descalça depois de três longas horas à procura de qualquer tipo de calçado, e, com o ligeiro pó que se entranhou nas minhas unhas, talvez um pouco sujo. Não sei se a minha sala de aula é grande mas tenho a certeza de que o chão é alcatifado pois a sensação de algo brando debaixo dos meus pés não passa em vão. A professora Regina cheira a maçã verde, talvez utilize aquele perfume da DKNY característico pelo seu cheiro a maçã.Nunca fui de fazer amizades facilmente. Isso mudou. Fui para um local repleto de pessoas que passam as mesmas dificuldades que eu. Todos os dias nos rimos com os episódios insólitos de ou quase sermos atropelados pelo autocarro ou em vez do 714 apanharmos 750 e irmos parar a Algés. A indignação de cair numa poça de lama que ‘’se atravessou’’ no nosso caminho é algo que nos persegue mas nem por isso nos aguilhoa. Acho que me tornei numa pessoa mais sociável e em vez de escolher os meus amigos pela sua cor ou aparência comecei a fazê-lo pelo seu óptimo perfume ou pela sua voz suave que me acalma.Até aqui tenho dito somente coisas positivas acerca da minha cegueira, não é? Infelizmente, não posso dizer que tudo é um mar de rosas porque não é. Todos os dias levo encontrões, oiço comentários do género ‘‘Saí daí estúpida, olha que o carro te passa por cima’’ ou ‘’És cega ou quê?’’, mas nem por isso abdico da minha liberdade e continuo a andar sozinha na rua. Aliás, às vezes até reforço a ideia de que os verdadeiros cegos aqui são muitas dessas pessoas que me insultam pois ou não vêem ou teimam em ignorar as injustiças que vigoram na nossa sociedade. Voltando à minha cegueira, uma das coisas que me custa é não poder ver o azul do céu ou ver o meu namorado, nunca o vi. Tenho saudades de ver a minha mãe, o meu pai e os meus irmãos. Apesar disso quando toco na textura das suas peles e os distingo pelas suas diferentes tonalidades de voz é como se por momentos os estivesse a ver claramente. E coisas simples como ir ao cinema ou a uma exposição de pintura? Não é possível imaginar a falta que tudo isto me faz. Mas retornando àquilo que preenche os meus dias e como a minha mãe sempre disse que ter um hobby é bom para me distrair optei por experimentar a olaria. Descobri que não há nada melhor como sentir o fresco do barro a desfazer-se nas minhas mãos. A olaria foi uma prova de que ainda sou capaz de moldar coisas bonitas apesar de não as poder contemplar.Regresso a casa. Lá está o Miguel, o meu namorado, pronto para mais uma aula de culinária. Não deixei de cozinhar e agora até saboreio as coisas mais intensamente. Hoje em dia, reconheço os alimentos pelo seu cheiro e forma. Conhecem aquele mito que defende a ideia de que os cegos quando nascem ou perdem a visão ganham um super poder e puff os restante sentidos estão aprimorados? É mentira. Como tudo na vida implica esforço e dedicação. Por isso mesmo, afirmo que o meu olfacto e paladar estão bastante mais apurados devido ao treino constante e não a qualquer super poder que adquiri. É, então, o olfacto que me permite distinguir o açafrão, com um cheiro mais salgado, da canela que tem como característica o seu cheiro doce que se assemelha ao açúcar. Aprendi a ver os alimentos com as mãos e com isso a repugnância de tocar em peixe cru ou nas moelas da galinha desapareceu, restando somente a vontade de comer.Depois de o serão a ouvir música ou a ler, dou um beijo ao Miguel e espero-o na cama. Antes de adormecer todos os dias sou invadida pelo mesmo pensamento: ‘’Como a minha vida mudou’’. Acho que todos aqueles que me rodeiam ou que se cruzam comigo na rua têm pena de mim e pensam que sou a coitadinha que não vê. Esses que o fazem julgam-me mal. Sou muito feliz. Aliás, posso dizer que quem tem pena deles por vezes sou eu pois infelizmente vivo num mundo onde a cegueira social é bem mais grave do que a minha pobre cegueira. Problemas sociais, como o desemprego, a prostituição, os roubos e a discriminação são ignorados, propositadamente ou não, pela maioria das pessoas. A maior dificuldade que alguma vez alguém poderá enfrentar não é não poder ver onde deixou os óculos ou onde é a cozinha mas sim não conseguir enxergar as injustiças e a precariedade que caracterizam o nosso país. O acidente que me causou a cegueira não me destruiu, ele só me tornou mais forte e me deu razões para agarrar a oportunidade de ‘’ver’’ a vida de outra forma. Esta cegueira pode ser um problema ou um azar mas é minha e quem se tem de importar com ela sou eu. Bem pior talvez seja a cegueira que abrange grande parte da sociedade e nem com essa alguém se parece preocupar.
José Saramago, Apresentação pública do livro Ensaio sobre a Cegueira
Nunca tinha pensado no verdadeiro sentido da palavra cegueira até ao dia em que esta forçosamente se impôs na minha rotina. Acordo, com a ajuda da minha mão pego na bengala e dirijo-me por instinto à casa de banho. Agora já consigo tratar da minha higiene sozinha. Decorei qual é o lugar permanente dos champôs, da minha escova de dentes, do chuveiro e até do armário onde estão guardadas as tolhas de banho. Depois de superar um dos muitos obstáculos que enfrento todos os dias chego sempre à conclusão de que tenho fome. A cozinha fica mesmo ao lado do meu quarto e por isso a tarefa de chegar até lá é bem fácil. E vestir? Nem me digam nada… Sempre fui uma mulher vaidosa que planeava detalhadamente o que usar e como conjugar todas as peças de roupa. O meu mais precioso amigo, o tacto, adquire aqui um papel crucial pois é ele que, juntamente com as etiquetas em Braille que imperam no meu armário, todos os dias me ajuda a perceber se determinada peça de roupa fica bem com outra. Apesar disto ainda sinto a falta do pensamento que diariamente me ocorria quando me via ao espelho: ‘’Até estou bonita’’.Saio de casa. A bengala, aquele pau de ferro que costumam tratar como um objecto inútil, tornou-se uma das minhas melhores amigas e é com ela que me oriento até à escola de Braille. Adorava dizer que a escola é verde, espaçosa, cheia de quadros, que tem um jardim magnífico e que o porteiro Pedro é lindo de morrer. Não posso fazê-lo. Posso sim dizer que as paredes são frescas, talvez feitas de gesso. O chão é frio, algo que senti no dia em que decidi ir descalça depois de três longas horas à procura de qualquer tipo de calçado, e, com o ligeiro pó que se entranhou nas minhas unhas, talvez um pouco sujo. Não sei se a minha sala de aula é grande mas tenho a certeza de que o chão é alcatifado pois a sensação de algo brando debaixo dos meus pés não passa em vão. A professora Regina cheira a maçã verde, talvez utilize aquele perfume da DKNY característico pelo seu cheiro a maçã.Nunca fui de fazer amizades facilmente. Isso mudou. Fui para um local repleto de pessoas que passam as mesmas dificuldades que eu. Todos os dias nos rimos com os episódios insólitos de ou quase sermos atropelados pelo autocarro ou em vez do 714 apanharmos 750 e irmos parar a Algés. A indignação de cair numa poça de lama que ‘’se atravessou’’ no nosso caminho é algo que nos persegue mas nem por isso nos aguilhoa. Acho que me tornei numa pessoa mais sociável e em vez de escolher os meus amigos pela sua cor ou aparência comecei a fazê-lo pelo seu óptimo perfume ou pela sua voz suave que me acalma.Até aqui tenho dito somente coisas positivas acerca da minha cegueira, não é? Infelizmente, não posso dizer que tudo é um mar de rosas porque não é. Todos os dias levo encontrões, oiço comentários do género ‘‘Saí daí estúpida, olha que o carro te passa por cima’’ ou ‘’És cega ou quê?’’, mas nem por isso abdico da minha liberdade e continuo a andar sozinha na rua. Aliás, às vezes até reforço a ideia de que os verdadeiros cegos aqui são muitas dessas pessoas que me insultam pois ou não vêem ou teimam em ignorar as injustiças que vigoram na nossa sociedade. Voltando à minha cegueira, uma das coisas que me custa é não poder ver o azul do céu ou ver o meu namorado, nunca o vi. Tenho saudades de ver a minha mãe, o meu pai e os meus irmãos. Apesar disso quando toco na textura das suas peles e os distingo pelas suas diferentes tonalidades de voz é como se por momentos os estivesse a ver claramente. E coisas simples como ir ao cinema ou a uma exposição de pintura? Não é possível imaginar a falta que tudo isto me faz. Mas retornando àquilo que preenche os meus dias e como a minha mãe sempre disse que ter um hobby é bom para me distrair optei por experimentar a olaria. Descobri que não há nada melhor como sentir o fresco do barro a desfazer-se nas minhas mãos. A olaria foi uma prova de que ainda sou capaz de moldar coisas bonitas apesar de não as poder contemplar.Regresso a casa. Lá está o Miguel, o meu namorado, pronto para mais uma aula de culinária. Não deixei de cozinhar e agora até saboreio as coisas mais intensamente. Hoje em dia, reconheço os alimentos pelo seu cheiro e forma. Conhecem aquele mito que defende a ideia de que os cegos quando nascem ou perdem a visão ganham um super poder e puff os restante sentidos estão aprimorados? É mentira. Como tudo na vida implica esforço e dedicação. Por isso mesmo, afirmo que o meu olfacto e paladar estão bastante mais apurados devido ao treino constante e não a qualquer super poder que adquiri. É, então, o olfacto que me permite distinguir o açafrão, com um cheiro mais salgado, da canela que tem como característica o seu cheiro doce que se assemelha ao açúcar. Aprendi a ver os alimentos com as mãos e com isso a repugnância de tocar em peixe cru ou nas moelas da galinha desapareceu, restando somente a vontade de comer.Depois de o serão a ouvir música ou a ler, dou um beijo ao Miguel e espero-o na cama. Antes de adormecer todos os dias sou invadida pelo mesmo pensamento: ‘’Como a minha vida mudou’’. Acho que todos aqueles que me rodeiam ou que se cruzam comigo na rua têm pena de mim e pensam que sou a coitadinha que não vê. Esses que o fazem julgam-me mal. Sou muito feliz. Aliás, posso dizer que quem tem pena deles por vezes sou eu pois infelizmente vivo num mundo onde a cegueira social é bem mais grave do que a minha pobre cegueira. Problemas sociais, como o desemprego, a prostituição, os roubos e a discriminação são ignorados, propositadamente ou não, pela maioria das pessoas. A maior dificuldade que alguma vez alguém poderá enfrentar não é não poder ver onde deixou os óculos ou onde é a cozinha mas sim não conseguir enxergar as injustiças e a precariedade que caracterizam o nosso país. O acidente que me causou a cegueira não me destruiu, ele só me tornou mais forte e me deu razões para agarrar a oportunidade de ‘’ver’’ a vida de outra forma. Esta cegueira pode ser um problema ou um azar mas é minha e quem se tem de importar com ela sou eu. Bem pior talvez seja a cegueira que abrange grande parte da sociedade e nem com essa alguém se parece preocupar.
N.Vieira
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