Sábado, 26 de Maio de 2012

How he met Lisbon

"WE meet the places we wind up loving much the way we meet the people we fall for: on purpose and accidentally; at precisely the right moment and exactly the wrong time; in the highest of spirits and the lowest of moods" Frank Bruni, in  The New York Times

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

de que lhe valia?

Trocava-se no seu tempo. Pensava naquilo que tinha vindo mas que já tinha ido. Não o lamentava. Simplesmente lhe fazia bem reviver aquilo. Porquê? Para se sentir mais capaz, mais resistente. Ninguém ia fazer por si aquilo que só lhe cabia a si fazer. Podia não ser rápido, fácil ou indolor. O importante era durar. Pelo menos para si, para aquele seu tempo pessoal. Apesar de se trocar, não se enganava. Ou pelo menos queria acreditar que sim. De que lhe valia a sua palavra? No fim do dia a questão era sempre a mesma.

N.Vieira

por breves duas horas

Deu dois toques na porta. Antigamente era assim que fazia para se dar a conhecer. O duplo toque antecipava a sua chegada. Entrou, tirou os sapatos e sentou-se. Olhou para si, de uma forma mais crua do que nunca. Não a assustou. Estava farta de saber que os seus ataques de fúria eram constantes, que o seu (hu)amor era difícil. Sentou-se a seu lado. Abraçou-o no silêncio mais sincero das suas palavras. Não esperava nada em troca, como sempre. Posou a mão em cima de si. Estava ali o acto de reconhecimento. Não precisava de mais nada. Prolongou aquele momento por breves duas horas. Se fechar os olhos, ainda hoje está lá. De mãos pousadas uma em cima da outra. Por breves duas horas.

N.Vieira

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

as escadas subidas

E assim, quase sem dar por isso, as escadas tinham sido subidas. Os degraus que ao inicio pareciam enormes, não passaram de um contratempo. Aquilo que parecia inatingível, foi atingido. Os risos que estavam perdidos foram encontrados. As palavras encontraram o seu caminho. O pensamento já não estava perdido. Porque a lua se tinha reconciliado com o sol. Porque as estrelas resolveram aceitar a oportunidade. E, quando deram por isso, já não estavam sozinhas. Tinham ali, mesmo ali, tudo aquilo que precisavam.

N.Vieira

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

cinco dedos

Um dedo. Dois dedos. Três dedos. Quatro dedos. Cinco dedos fechados, apertados. Representavam uma frustração. Falavam de um alguém. Agarravam outros cinco dedos, não meus. Enrolavam-se na ânsia de sentir o que não se devia. Cruzavam-se com a mistura sentimental momentânea. Gritavam por um apreço. Beijavam-se uns aos outros. Cravavam-se em si mesmos. Pisavam a mão que não lhes pertenciam. No fim soltaram-se, libertaram-se. Não voltaram à estaca zero, escolheram a estaca superior, aquela que lhes abria outro mundo. Até agora continuam lá.

N.Vieira

Terça-feira, 24 de Abril de 2012

timming

Começa, naturalmente. Como de outra forma qualquer as coisas desenrolam-se. E, como de outra forma qualquer, corre tudo bem, é tudo perfeito. Mas nem tudo é assim tão fácil. Quando as coisas parecem bem, não o estão. É assim nos filmes, nos livros, na vida. Baseia-se nos desencontros, na vivência diferente das coisas. Acho que é o chamado timming. Às vezes quando mais se quer algo, menos se pode ter. Depois, quando menos se está à espera, tudo se torna possível. Mas, será que quando a possibilidade aparece as coisas são iguais ao que eram? Muito se passou, muito se viveu, muito se cresceu, muito se mudou. Não se diz respeito à sinceridade ou à validade do sentimento. Diz respeito ao timming. Foi ele. Veio no tempo errado. Não acertou. Mas veio e isso sim é o imporante. Agora só se trata de saber lidar com ele. Eles souberam, pelo menos foi o que filme me disse.

N.Vieira

Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

o grito

Gritou. Este não era um grito de alivio. Este não era um grito de desespero. Era um grito verdadeiro. Um grito de frustração. O acto de gritar não lhe era comum. Mas, naquela hora, tinha de o fazer. O acto de gritar libertava aquilo que o corpo escondia. A liberdade era finalmente sentida, vivida. O corpo continha aquilo há demasiados meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos. O grito não vinha por desespero, sublinho. O grito vinha porque assim tinha de ser. E não se pode ignorar um grito. Venha ele de onde vier. 

N.Vieira

Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

à sua normalidade

Chovia. Não tinha parado de chover. Já eram dois dias inteiros disto. As ruas eram lavadas. As estradas eram lavadas. Mas, mais importante, as almas eram lavadas. Cada gota que chegava trazia algo. Cada gota que caía fazia algo. As pessoas pensavam mais, questionavam-se mais. Talvez sentissem falta do sol. A verdade é que a chuva transformava o humor de qualquer ser humano. A chuva afastava a comédia e apelava mais ao drama. Mais uma vez, talvez fosse a saudade do sol. Até que parou de chover. As ruas voltaram ao estado normal. As estradas voltaram à sua realidade. E as almas voltaram àquilo que eram. Até que se percebeu: é e sempre será assim, no fim volta tudo à sua normalidade.

N.Vieira